Dizem que nada nesta vida é por acaso, que tudo segue um plano, que cada acontecimento tem uma razão de ser. Alguns dizem até que antes de sermos concebidos, escolhemos conscientemente quem será o nosso pai e nossa mãe. Dizem também, dentre muitas outras coisas, que escolhemos previamente as dificuldades pelas quais iremos passar, assim com as pessoas que estarão ao nosso lado durante nossa jornada nesta vida terrena, e até mesmo de que forma deixaremos este plano. Mais do que isso, dizem também que nossa estada aqui é apenas uma ínfima parte de nossa existência. Não sei vocês, mas pra mim, infelizmente, nada disso acalanta sofrimento algum.

Além do mais, o que tudo isso quer dizer? Que o livre arbítrio de nada adianta? Que não podemos mudar o curso da nossa “pré-programada” vida? Que nosso destino é imutável?

Eu, embora me considere seja uma pessoa de fé, não sei exatamente no que acredito, nem no que deixo de acreditar (além de Deus). Uma coisa é fato: há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”, então prefiro não tentar entender os mistérios, apenas tentar aceitá-los resignadamente como parte da vida…

Aí vem uma tempestade totalmente inesperada, leva pra um outro plano uma pessoa muito querida. Esta tempestade sacode todas as estruturas e me coloca em estado de profunda tristeza, me deixa também cheia de medos. Medo da imprevisibilidade e fragilidade da vida. Medo das consequências das escolhas que fiz. Medo de não estar seguindo o caminho “certo”. Medo, medo, medo. E todo esse medo e tristeza que passam a habitar meu descontrolado corpo, abrem as portas dele para hóspedes indesejáveis, doenças que chegaram para ficar, para modificar para sempre a minha vida, mas espero eu, não a minha essência.

Meus desafios hoje são outros, meus planos também. Perdas e doenças nos fazem repensar a vida (ainda que momentâneamente), reclassificar o grau de importância das coisas, das pessoas, das situações.

Eu hoje, apesar de ainda estar sobre um estresse grande, que se reflete no meu dia-a-dia, nas minhas reações e também na quantidade de cabelos caídos pela casa (e na falta que já estão fazendo na minha cabeça), encaro as coisas de forma diferente: tentando dar importância ao que realmente importa. Briguinhas, mal entendidos, alfinetadas, disse-me-disse… nada disso tem espaço em minha vida. Já me incomodei muito com coisas que não valiam a pena, hoje eu quero é paz. Paz, amor, família e… saúde (toda possível). Infelizmente ainda há muitas coisas que fazem meu sangue ferver. Injustiças, crueldade, mentiras deslavadas e falsidade são coisas que ainda me afetam demais, então eu faço o que? O que está ao meu alcance: tento me afastar dos irradiadores de coisas/sentimentos ruins. Mas às vezes os sentimentos ruins, como a tristeza e o medo, ainda assim afloram…

Hoje, faz um ano que que minha querida sogra foi arrancada deste plano. Um ano já e eu ainda não me acostumei à ideia. Ainda me emociono e sinto que as peças estão fora do lugar. Talvez o fato de morar aqui tão longe e não ter acompanhado o desenrolar da vida, nem o dia-a-dia sem sua presença, tenha me impedido de reorganizar as peças dentro de mim. Pra mim, ainda é muito estranho pensar que no dia que eu voltar ao Brasil, ela não estará lá com seu sorriso largo e os olhos mareados. Difícil imaginar passar pela cozinha sem ouvir o “alecrim, alecrim dourado, que nasceu no campo sem ser semeado…”. Talvez por isso, não tenhamos no horizonte o dia que visitaremos a terrinha novamente (ver tudo diferente será muito difícil)… talvez por isso fiquemos inventando desculpas e colocando empecilhos. Talvez por isso, eu me dedique em tentar convencer a família que eles precisam vir (mais) aqui.

Eu definitivamente não sei lidar com perdas, definitivamente não aprendi dizer adeus, muito menos quando não me foi dada a oportunidade da despedida (não que isso adiante alguma coisa), então a tristeza é ineviável.

Entretanto, Papai do Céu (ou a vida, a sorte – chame como quiser), nas vésperas de completarmos um ano sem a Soninha, nos deu de presente a alegria do nascimento do Bernardo – o quinto netinho, que infelizmente ela não estava aqui para receber com um abraço, mas sabe de uma coisa? Tenho certeza que de alguma forma ela estava presente, lá na sala de parto, e o abraçou com seu amor infinito bem na hora que o pequeno viu a luz . A Soninha, que sempre quis ter um milhão de netos, certamente estará sempre entre nós, protegendo nossos pequenos Palmeirinhas desta geração, e nós sempre lembraremos dela, dos seus cuidados, das suas palavras, do seu carinho e dedicação. Sua presença está eternizada em nossos álbuns de família, em nossos pensamentos e nas infinitas histórias que temos pra contar. Seu corpo pode não estar mais presente, mas sua energia, de alguma forma habita cada um de nós que tivemos o privilégio de tê-la em nossas vidas.

Dizem que quando a vida fecha uma porta, Deus abre uma janela, então que nosso pequeno Bernardo, meu quinto sobrinho, já muito amado, seja esta janela de esperança, de amor e de certeza que esta será sempre uma grande e unida família, da qual eu orgulhosamente vim fazer parte.

Deixo aqui meu amor aos novos papais e ao seu primogênito, pela grande chegada.

Deixo aqui também minha saudade eterna à Soninha pela devastadora e precoce partida.

 
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Erica Palmeira

One Response to chegadas e partidas: o ciclo da vida

  1. mariana says:

    Erica, aqui estamos vivendo intensamente os efeitos desse ciclo da vida. Ano passado nessa época estávamos todos muito tristes. Hoje com a chegada do Be posso dizer que ameniza a tristeza e mostra que a vida não é uma linha reta. De alguma forma a saudade até aumenta porque é impensável que ela não esteja aqui conosco compartilhando justamente a alegria do nascimento, mas concordo com você: a energia dela está MUITO presente!!

Diz aí :)