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Foi ontem, num mercadinho aqui em Barcelona, que ao ir de encontro ao meu digníssimo que estava terminando de colocar as compras na esteira do caixa, fui surpreendida por uma bengalada. Isso mesmo, uma ben-ga-la-da!

Eu, certamente, falo muito baixo, baixo demais! Tão baixo que a senhorinha do final da fila não ouviu meu “perdona”, na hora que passei por ela para a frente da fila, onde meu marido e filhos estavam me aguardando com os últimos itens das comprinhas (dois rolos de papel toalha e duas barras de chocolate). Ela, concluindo que eu era uma louca furona de fila, largou a bengala em cima de mim! Cena de filme, de novela mexicana!

Eu, instantaneamente, olhei pra trás e me justifiquei, dizendo que meu marido estava ali. A senhorinha, que, notem, não pediu desculpa, pelo menos demonstrou uma certa vergonha por ter me atacado antes de confirmar sua suspeita. Deu um sorriso sem graça e seguiu a vida como se nada tivesse acontecido.

São as vantagens de ser uma senhorinha. A pessoa pode praticar atos insanos sem ser julgada, criticada, nem atacada de volta.

Depois fiquei pensando com meus botões, não fosse uma senhorinha magrinha, velhinha e com jeitinho frágil, eu teria olhado no fundo dos olhos e perguntado: “tá maluca?” Mas quando virei pra trás e conferi a figura que havia largado a bengala em mim, o que saiu foi um pedido de desculpas seguido de uma justificativa. Engraçado esses reflexos que a gente tem, né?

Bom, a bengalada também não foi pra machucar, mas para alertar, rsrs. Se tivesse machucado, talvez eu não fosse tão benevolente.

Mas o pior disso tudo foi a crise de riso que eu tive que segurar enquanto pagava as compras :)

 

Nickito é um poço de sensibilidade. Além de extremamente carinhoso, ele é um eterno preocupado. Percebe no ato se alguém está triste, doente, machucado, e faz tudo o que estiver ao seu alcance para amenizar o sofrimento daqueles que o rodeiam. Ele é doce no toque, suave na voz e profundo no olhar.

Noutro dia, cheguei em casa mais tarde. Ele estava sentado à mesa junto ao Vivi, comendo um hambúrguer que o pai havia preparado. Ao me ver entrando em casa, imediatamente pulou da cadeira e veio me recepcionar com beijinhos e abraços de alegria, que não duraram nem 10 segundos, porque ele imediatamente se atentou para o detalhe de que não havia mais hambúrgueres. “E agora, papai!!!!! Não tem um hambúrguer pra mamãe!!!!”, ele exclamou genuinamente preocupado. “Já sei!”, continuou, “Vou dividir o meu com ela”.

Eu, que já havia jantado, fiquei com os olhos rasos d’água, claro. Como pode, meu Deus? Um menininho de 4 anos ser tão ligado, tão sensível, tão amável?

São infinitos os exemplos e sua sensibilidade, que vem crescendo tanto quanto vem ficando mais forte o seu gênio :)

Hoje, a tristeza que ele sentiu, quando despediu-se do pai que embarcou  pro Brasil por 5 dias, foi tão profunda que me esmigalhou o coração. Chorava inconsolável e dizia assim: “o papai não pode ir sem a gente, assim não seremos mais uma família de 4, vamos ser uma família só de três, não pode!”

Dei colinho, expliquei, disse que o papai voltaria logo, mas nada o consolava. Demorou pra que ele esquecesse do assunto e tenho certeza que amanhã, ao acordar, vai perguntar pelo papai e chorar mais um pouquinho.

Ele sofre e eu sofro duplamente. Sim, porque o fruto não cai longe da árvore, né?

Em tempo: Na hora do jantar, ele ainda falou assim: “e agora, quem vai fazer hambúrguer pra gente?” rsrsr – deu pra perceber que se a mamãe não está em casa o jantar é estranho, né? rs

 

Acabo de sair do quarto dos meninos. Os dois dormem faz tempo, entretanto o Vivi está novamente sob o ataque daquela crise de tosse que volta e meia o assombra.

Fui lá passar Vicky nas plantas dos seus pés e calçar-lhe meias, e qual não foi meu espanto ao notar suas canelinhas magrelinhas cobertas em pelos. Meu Deus, meu pequeno, que noutro dia mesmo era um bebê, já está crescendo pelos nas pernas! Não são pelos adultos, mas até um mês atrás, tudo o que ele tinha era uma penugem quase imperceptível e há um ano, nem isso tinha.

A sensação que tenho é que essas crianças crescem num piscar de olhos, só que mesmo assim, ainda tenho vontade de pega-los  no colo, quando estão doentes (ou mesmo quando não estão) e leva-los pra minha cama. Fico pensando, será que isso passa? Será que essa vontade de proteger, de colocá-los sob as penas da minha asa, será que passa? Ou será assim para sempre?

Será que se for assim para sempre, eu conseguirei dosar pra não sufoca-los? Amo tanto essas coisinhas, que morro de medo que eles cresçam, casem e se mudem pra bem longe. Morro de medo de um dia estar a milhas e milhas de distância e não poder passar Vicky nas plantas de seus pés, de não poder acudir, colocar sob a proteção da minha asa.

Às vezes tenho medo, muito medo de piscar os olhos.

 

Em tempo: Marido viajou hoje e estará fora por alguns dias. Mal saiu e já estou sentindo um vazio enorme na casa, no peito. Calculo como me sentirei o dia que os meninos saírem do ninho.

 

 

Ontem à noite fomos jantar num chinês aqui perto do apê. Desta vez, estamos mais ao sul, próximos do Arc del Triomf, num bairro chamado El Fort Pienc.

Já havia notado que o número de asiáticos aqui é muito maior na Direita do Eixample, onde ficamos da outra vez. Por aqui, é super comum ver várias famílias chinesas no parquinho, mas não é só isso… Há inúmeras lojas por aqui, que além do letreiro em espanhol, tem também em chinês. E não pára por aí. Notei que não são espanhóis descendentes de chinês, mas chineses mesmo, que, muitas vezes, falam apenas chinês e, quando muito, um espanhol bem quebrado, quase como o meu (hahaha, eu não falo nem quebrado, rs).

No restaurante que fomos, que por sinal estava super bem avaliado no Foursquare, eles mal falavam espanhol. Entendiam, mas falar que é bom, necas. São beeem chineses mesmo. Me senti em Beijing! Não só por causa da língua, mas também por causa dos gestos, do jeito, do comportamento.

Quer tirar a prova dos 9 pra saber se o chinês é genuíno? É molezinha: coloque-o frente-a-frente com o Nick. Na primeira olhada do meu pequeno, na primeira piscadela daqueles olhões com cílios imensos e cheios, é batata, todo chinês que se preza, se derrete, rs

Lembro bem da nossa saga em Beijing, quando o pequeno não tinha nem um ano de vida e a nossa família era perseguida para fotos. Não podíamos dar dez passos sem que tivéssemos que posar pra fotos. A família de olhudos, rs. Tentavam a todo custo pegar o nick no colo, ficavam completamente encantados com o baby Nick. Nem metrô lotado os impedia de tirar fotos e gravar vídeos do Nickito – privacidade zero! No primeiro dia, foi até engraçado, mas nos 10 dias que se seguiram, meodeos! Que tormenta!

Enfim, no tal restaurante, a princípio não fomos muito bem recepcionados não. Não fomos mal tratados, claro, mas também não houve aquela simpatia básica com a qual se recebe um cliente. Mas a apatia não durou muito. Foi só o garçon ficar cara-a-cara com o Nickito, que tentava usar os palitinhos para comer, e pronto: foi fisgado! Super simpático, começou a ensinar os moleques a usar os palitinhos, e ria, todo bobo. Não demorou pra que mais uma garçonete aparecesse pra admirar meus olhudinhos :) Até balbuciaram algumas tímidas palavrinhas em espanhol,  rs

Mas eu comecei a escrever este post, pra falar da população chinesa, que habita este lado de Barcelona, a qual eu não não tinha conhecimento. Pra mim, os asiáticos daqui eram todos paquistaneses, fiquei bem surpresa com a descoberta.

Bom, nos demos bem. Temos um restaurante chinês autêntico, com comida gostosinha, porções super bem servidas e precinho ó, super em conta! O único inconveniente é que se você chegar após as 8 da noite, tem que ficar na fila pra entrar (chegamos 7:30), porque pega fogo!! E não é um restaurante familiar, não. Só garotada! Diria que pelo menos 80% dos clientes estão nos vinte e pouquísimos. Comida farta, boa e barata dá nisso, rsrsrs. Ah, o barulho também é intenso! Fazia muuuuuuito tempo que não ia a um lugar to barulhento. Era tanto barulho e tanta gente, que até o Nick ficou incomodado: “muito noisyyyy”, :P

Mas algo me diz que voltaremos lá para um repeteco.

 

 

 

Quase 3 semanas aqui e quinta passada foi a primeira vez que saímos, eu e marido, para almoçar sozinhos. Sim, porque bandejão da faculdade não conta, né? Peloamor! rsrsrs

Não que tenhamos ido a um restaurante de fino trato na quinta, pelo contrário, fomos num boteco colombiano com comidinha simples e bem caseira, daqueles que um prato dá pra dois, sabem? Pois é, um prato dá pra dois, um suco dá pra dois. Tudo em tamanho Itú. Maaaaaaaas, pedimos um pra cada (!!!) e comemos e bebemos tudinho. Trabalhador de obra invejaria nossa disposição, rs

A ideia era ir no Can Culleretes,  o restaurante mais antigo da Cataluña (segundo mais antigo da Espanha), mas a pessoa aqui quando começa a trabalhar não pára, né? Aí o tempo passou e acabamos tendo que nos conformar com uma opção mais próxima de casa, até porque, tínhamos uma reunião com a professora do Nick, pra falar sobre a adaptação dele, que não está sedo fácil.

Anyways, no almoço super romântico só que não, tomei um balde de suco natural de maracujá super gostosinho e chafurdei num prato de comida tamanho GG. Saí de lá arrependida – pra que comer tanto, gente?

A comida era bem gostosinha, tanto que retornamos na sexta à noite, com as crianças, para jantar.

Pra nosso completo desespero, a porção do jantar era ainda mais generosa. Sério, quando chegou o meu prato, achei que fosse pros 4. Era uma bandeja com comida pra família inteira! Foi tanta, mas tanta comida, que ao sair de lá, meu digníssimo olhou pra mim (=minha barriga) e fez o seguinte comentário: você tá parecendo  a Lilly (How I met your mother)… Lilly after hotdogs, rsrrsr E o pior é que tava mesmo. Não conseguia nem respirar de tão, tão…. satisfeita, rs. E olha que só comi a metade da minha bandeja!

Os meninos dividiram um prato e, apesar de terem comido muito, não conseguiram terminar.

Olha, quando eu digo que o prato é bem servido, é porque realmente muito bem servido. Quando eu digo que a comida era muita, gente, é porque era além da conta!

Acho que não voltaremos mais no Colombiano, não porque não seja gostosinho, mas porque ninguém precisa comer tanto assim, rs

Proximo almoço a dois, me comportarei como uma lady ;)


PS1: Nickito chafurdou legal no feijãocarroz – tadinho, ele sente falta de comida normal. Aqui a gente praticamente não cozinha… Eu gosto de cozinhar, mas odeio cozinhar fora da minha casa, da minha cozinha, sem as minhas panelas, os meus temperos, as minhas facas… Não que sejam panelas, facas, temperos especiais… mas são meus, rs (ass: a chatona)

PS2: na quinta, após o almoço, fomos conversar com a professora do Nick e, pra nosso desespero, ela confirmou tudo o que ele vem falando. O que mais nos preocupa no momento é que ele se recusa a fazer amigos. Aparentemente ele fica bem durante as aulas (apesar de estranhar bastante o esquema espanhol, que é igual ao brasileiro, de ficar sentado e assistir aulas, já que na Austrália, a criançada da idade dele brinca o dia inteiro, faz o que quer, na hora que bem entende), o problema maior é que ele passa os intervalos inteirinhos sozinho e repele qualquer criança que se aproxime dele pra tentar brincar. Genioso que só! As únicas pessoas que ele aceita por perto são as meninas grandes, que chegam pra paparicar. Fora isso, ele fica sozinho. Meu coração se despedaça :(

Se a situação permanecer tal como está, vamos tirá-los da escola no fim do mês. Aguardemos o desenrolar dos fatos. Espero que não esteja sendo muito traumatizante pro meu pitoquinho.

 

O tempo está voando! Já estamos em nosso terceiro fim de semana em Barcelona. Lá se foram 3 semanas, desde que aqui chegamos. Há momentos em que parece que foi ontem, noutros, parece que moro aqui desde sempre.

De certa forma, entramos na rotina, trabalho durante o dia, enquanto os moleques estão no colégio, parquinho à tardinha, depois banho, jantar e repete tudo outra vez no dia seguinte. Nem tenho, como da outra vez, saído pra almoçar com o marido a sós, durante a semana. Mas por quê?

Ah, gente é a exaustão proveniente dessa maldita autoimune que insiste em querer me controlar e é automaticamente ativada pelo estresse, ansiedade… e está intimamente conectada ao emocional – para meu azar.

Ano passado nesta mesma época, eu, que havia acabado de fazer uma transfusão de ferro, estava alegre e saltitante, cheia de energia. Um ano depois, aqui estou eu, me arrastando, forçando uma barra pra curtir esta cidade que eu tanto adoro, curtir o tempo que está maravilhoso, curtir a vida… mas tá difícil.

Não gosto de reclamar, até porque, convenhamos, né? Tenho tantos motivos pra me alegrar, que nem seria justo, entretanto, contudo, todavia, meu nível de cansaço está absurdo, a energia tá na reserva, a boca, árida como o sertão, os olhos coçam, a pele ressecada, os cabelos (melhor nem comentar, rs) e a cabeça explodindo. Pra ficar ainda mais gostoso, minhas alergias, que não sinto há séculos, resolveram dar as caras, por causa do pólen, acho eu. Ou seja, estou com aquele velho problema de junta: junta tudo e joga fora, hahaha –  só não perdi o bom humor :P

Vim pra cá com a esperança de ter a mesma experiência do ano passado, a mesma sensação, a mesma disposição, mas esqueci de combinar com meu corpo, com minha saúde e principalmente com o meu emocional. Aí, deu no que deu, né?

Na verdade, desde o ocorrido no aeroporto, já sabia que sofreria as consequências, porque todo aquele estresse, certamente deixaria marcas e, não só deixou, como estão aqui latejando.

Mas eu gosto de fingir que tá tudo bem, que não tenho limitações, que não preciso pegar leve. Gosto de fingir que sou a mesma Erica de 2 anos atrás, que nada mudou. O problema é que todo esse fingimento tem um preço, que eu acabo pagando, moeda por moeda.

Mas por que resolvi escrever sobre isso? Pra desabafar. E também pra reler e ver se aceito, de uma vez por todas, que preciso mudar, preciso pegar leve, preciso cuidar da minha saúde física e emocional, preciso meditar, preciso voltar pra yoga, preciso me alimentar melhor. Preciso, preciso… preciso parar de me enganar e aceitar os fatos.

E sabem qual foi minha “wake up call”? Nosso passeio do fim de semana.

Levamos os meninos pra passar o dia em PortAventura, um parque temático, que fica uma hora daqui, o mesmo que fomos no ano passado.

Desta vez, em vez de passarmos dois dias, resolvemos abreviar o (nosso) sofrimento, até porque , dada a minha completa falta de energia, eu jamais conseguiria passar dois dias consecutivos andando o dia inteiro num parque temático, indo à montanha russa, mofando nas filas com o sol ardendo na cabeça.

Infelizmente, um dia apenas foi suficiente para drenar o restinho de energia que me habitava. Às 3 da tarde já estava bocejando, exausta. E sabe que horas fomos embora? Às 8 da noite, quando o parque fechou. Eu com dor de cabeça, enjoada, morrendo de sono.

Resultado: hoje, o domingão ensolarado que sucedeu o dia no parque, em vez de irmos à praia, ficamos em casa, praticamente o dia inteiro, por conta da minha falta de disposição.

Mas… eu já falei que vivo tentando fingir que está tudo bem? Então, saímos para almoçar (a pé, claro – pegar trem pra que, se eu tenho energia de sobra? rsrs) e resolvemos dar uma voltinha pela cidade – coisa pouca, só uns 7 Km – para aproveitar o dia lindo de sol. Foi bem gostoso, como bem observou o Vivi, esta cidade é muito interessante, rs, mas o preço foi alto. Estou aqui agora entregue às baratas, pensando como será o dia de amanhã. Com que disposição levantarei de manhã…

Será que eu aprendi a lição?

Em breve saberemos.

Volto daqui a pouco, depois que der banho no meu porquinho menor,  pra contar um pouquinho sobre o dia em PortAventura – prometo que não será um post reclamão e que terá até algumas fotos (até pra tirar fotos eu tô devagar, dá pra acreditar??).